2009-05-02 

Familiares de vítimas protestam contra a política do extermínio de Sérgio Cabral

Familiares e amigos de vítimas da violência policial, assim como movimentos sociais e organizações de direitos humanos organizaram uma vígilia, a partir das 0hs do dia 24/4, na rua onde o mora o governador do Estado do Rio de Janeiro, no bairro do Leblon, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.

Vigília 1

O objetivo principal era criticar a política de segurança pública do Estado, que se caracteriza, cada vez mais, pelo uso exclusivo da violência e, como consequência, elevado número de execuções sumárias, inclusive com a morte de muitos inocentes. A orientação do governo, expressa na atuação da secretaria de segurança pública, comandada atualmente por José Mariano Beltrame, encontra no confronto sua principal razão de ser. Para o governador e o secretário, apenas o enfrentamento direto dos grupos de criminosos enquistados nos morros e favelas da cidade seria viável para diminuir e controlar a violência que tem atingido níveis alarmantes. Expressão dessa forma de pensar e agir são os constantes anúncios de compra de novos equipamentos de segurança, que se assemelham a armas de guerra, com um potencial ofensivo sem igual.

Contudo, as consequências tem sido as piores possíveis. Mortes, violências, desrespeito e medo tem sido o saldo negativo desta forma de atuar das forças de segurança pública. A política do confronto vem destruíndo inúmeras famílias, expulsado moradores de seus locais de moradia, impondo medo e disseminando o terror, principalmente para aqueles que sofrem diretamente seus efeitos: os moradores de favelas desta cidade. Entretanto, o que parecia inimaginável aconteceu: não apenas os moradores destas localidades, que sofrem e enfrentam cotidianamente as nefastas consequências da violência da polícia e da política do confronto, mas também aqueles que moram nas áreas mais valorizadas da cidade.

Diante de tudo isso, os familiares e amigos de vítimas desta política se organizaram e realizaram um protesto pacífico para questionar tal estado de coisas e exigir mudanças. Estavam presentes familiares de vários fatos de violência policial do Estado, como o da Chacina da Baixada, a recente Chacina da Coroa, de Acari e muitos outros.

A concentração do ato foi na Praça Antero de Quental, no bairro do Leblon. Desde lá os manifestantes enfrentaram seu primeiro obstáculo: o Tenente-coronel Lima Castro, do 23° Batalhão, informou que não haveria nenhuma manifestação diante da casa da autoridade máxima do Estado. Entretanto, os familiares e militantes de direitos humanos presentes questionaram tal argumento do representante da polícia, alegando que era seu legítimo direito protestar, previsto, inclusive, na Constituição Federal. Mais do que uma garantia legal, para os presentes o que mais importava era serem ouvidos em seu grito por justiça e demonstrar que, apesar do medo e das intimidações, existiam pessoas que não se calam.

Caminharam, então, até a rua Aristides Espínola, e lá encontraram barreiras formadas pela polícia militar com placas da TurisRio (órgão do munícipio) que impediam a circulação tanto dos manifestantes, quanto dos moradores locais. Mais um obstáculo ao direito de ir e vir e de protestar. Diversos carros da polícia se localizaram próximos aos manifestantes, inclusive do serviço reservado da PM, que fotografaram e gravaram todo o ato. Neste mesmo instante, os organizadores confirmaram o fato de que Sérgio Cabral não estava em casa e sim em Paris. Nenhum representante do governo do Estado ou da secretaria de segurança foram dialogar com os familiares ou emitiu qualquer nota. Esse fato demonstra muito a forma de pensar e agir deste governo.

Apesar de todos os obstáculos encontrados, a insistência dos presentes foi determinante para o sucesso e o desenrolar das atividades. Os manifestantes fizeram 60 bonecos simulando os vários inocentes mortos pela política do confronto e exibiram diversos cartazes que exigiam respeito, dignidade e justiça. Impedidos de entrar na rua onde mora o governador, os familiares presentes iniciaram uma vigília, programada para durar toda a madrugada. Ao longo de todo esse período, receberiam o apoio espontâneo de inúmeras pessoas que circulavam nas redondezas, inclusive seriam aplaudidos por pessoas que se encontravam no bar em frente à rua. Os cartazes e os bonecos chamavam a atenção de todos que passavam, e alguns ou diminuiam a velocidade do carro para ler e entender o que ocorria ou paravam para perguntar e buscar mais informações. Além disso ser expressão da vitória e da visibilidade conquistada com a manifestação, demonstra um fato que, de certa maneira, vem legitimando e dando contornos de catástrofe a situação atual do Rio de Janeiro: o desconhecimento ou a evitação da população carioca sobre o que acontece na cidade. Além disso, várias emissoras de TV e jornalistas de jornais de grande circulação na cidade estiveram presente e realizaram diversas entrevistas com os familiares presentes.

O que este ato demonstrou foi o fato de que, mesmo diante do medo, violência e mortes, pessoas continuam de pé, gritando e lutando por justiça, exigindo reparação e, mais do que isso, mudanças na política de segurança pública no sentido de que esta não mais produza tanto horror e sofrimento.