2008-06-11
Ontem, 10/06, um grande efetivo da Polícia Militar e Civil, principalmente da Core, com apoio de helicópteros e pelo menos um blindado caveirão, estava desde a manhã realizando uma “operação” na favela de Acari. Comparado com o que normalmente acontece em atividades policiais desse tipo, a situação era relativamente “tranquila”, sem tiros.
Por isso, José Luís Faria da Silva, morador de Acari, pai do pequeno Maicon, morto aos dois anos em 1996 durante uma operação da PM, e militante da Rede, sentiu-se seguro para sair de casa ir à lanchonete que está construindo na favela há alguns meses.
Já na rua, e acompanhado por um jovem conhecido, avistaram um grupo de cerca de 25 policiais da Core realizando a apreensão de uma máquina caça-níqueis num bar. Um dos policiais, ao avistá-los, apontou a arma (fuzil) para o jovem e gritou agressivamente “levanta a camisa, neguinho!” José dirigiu-se ao policial normalmente dizendo que não era aquela a forma de se abordar uma pessoa, mesmo que suspeita. Foi o suficiente para se iniciar uma sessão de ofensas, intimidações, ameaças e agressões contra José.
Os 25 policiais parece que se esqueceram da “operação” e passaram a cercar e se dirigir a José de forma agressiva, chamando-o de “defensor de traficantes” e falando que ele “sabia onde estavam as armas”. Conduziram Zé até a loja em construção para “procurar armas e drogas”, revistaram o local mas nada encontraram, obviamente. Frustrados e irritados, continuaram as ameaças e ofensas, disseram que o material de construção que lá estava “era tudo roubado”, ameaçaram duas vezes José de morte, e ainda ameaçaram atirar no cachorro que Zé mantêm na loja. Parte desses incidentes foram inclusive gravados por uma equipe do SBT que se encontrava no local.
Ainda não satisfeitos, obrigaram José a levá-los até sua casa, “para procurar as drogas e as armas”. Lá chegando, encontraram Penha, esposa de Zé e mãe de Maicon, e fizeram as revistas em meio a ofensas e nova ameaça de morte. Diante de Penha um policial disse a José: “sua sorte é ser de dia, se fosse de noite eu te matava!”. Essa ameaça foi feita mais de uma vez. Outro policial disse “você acha que é fiscal da polícia? Você é muito abusado!”, e a certa altura um dos policiais desferiu um soco em José, abaixo do peito no lado esquerdo. Durante todo o tempo, o bando de policiais era dirigido por um oficial/agente ao qual se referiam como “comandante”. Todos os vizinhos de Zé e outros moradores ficaram muito assustados com o episódio.
Sem encontrar nada, os policiais se retiraram, sem pedir nenhuma desculpa ou coisa parecida. Imediatamente José foi ao centro do Rio, entrou em contato com outros membros da Rede e com o DDH (Instituto de Defensores de Direitos Humanos), e formalizou a denúncia no Ministério Público. José e a Rede esperam que o caso seja investigado e os responsáveis punidos.
O que aconteceu a José Luís é mais uma amostra do cotidiano de desrespeito e intimidação em que vivem os moradores de favelas e periferias no Rio. Entretanto, é mais do que isso: demonstra como é difícil organizar e manter um movimento contra a violência policial dentro das próprias comunidades pobres. Lá, coisas muito simples como exigir uma abordagem policial respeitosa e dentro das normas que a própria polícia adota oficialmente (quer dizer, no papel), pode gerar um constrangimento e violência como sofreram Zé, Penha e seus amigos e vizinhos.
Uma coisa é escrever e soltar notas ou relatórios sobre a brutalidade policial e o extermínio dos pobres a partir de escritórios e salões de reunião no centro da cidade, ou em universidades. Outra coisa bem diferente é enfrentar a brutalidade e o extermínio onde eles acontecem diretamente. O maior obstáculo para a organização de um movimento contra a violência do Estado nas favelas é a própria violência do Estado. O nome verdadeiro dessa situação todos sabem, embora nem sempre digam: ditadura, tirania, Estado de exceção.