Source: Comunidades Pelada e Bom Sucesso (CE)
Carta e abaixo-assinado em apoio às comunidades Pelada e Bom Sucesso (CE)
Para aderir, mandem uma mensagem para movimentodeculturapopular@yahoo.com.br.
RELATO DO BOM SUCESSO – COMUNIDADE PELADA
Memória Ancestral
Era uma vez no Ceará, grande sertão, antes do
descobrimento das Américas, uma terra livremente habitada por
uma complexa cadeia natural de comunidades: gente, feras,
macacos e micos entre tantas e outros, bichas e bichos, de bocas e
bicos, de macros e micros, orgânicos e inorgânicos, dos reinos:
animal, mineral e vegetal.
Era outra vez depois do descobrimento das Américas, uma
terra forçosamente invadida por um donatário e suas gangues, que,
aterrorizando a todos que coabitavam esta terra buscavam ouro ou
outros metais, desde que preciosos, quem sabe encontraria nesses
pés de montanhas…?! Decepção! Aqui não havia as minas e nem
as gerais, e sim praias, serras e sertões catingueiros da grande
seara ou siará grande.
Não encontrando exatamente o que procuravam, esses
aventureiros tinham as duas principais e mais preciosas e ao
mesmo tempo as mais indigestas das descobertas: 1 – que não
eram os primeiros humanos a chegarem nestas terras; e 2 –
consequentemente não eram os seus pioneiros e legítimos
descobridores. Reconhecendo o fracasso de sua missão: o de não
encontrar nesta terra nem se quer inimigos, e nem mentiras,
perturbaram-se com o tratamento vip com que foram recebidos
pelos que aqui primeiro chegaram, sentiram-se debaixo ao serem
elevados a patente de deuses! Não, não deu para suportar um
mundo sem malefícios, sem traição! Não haver se quer um
presentinho de grego?! É bárbaro! Uma humanidade desprovida de
qualquer maldade?! É para derrubar por terra toda e qualquer:
ganância, ambição… e … Dá para motivar o descumprimento da
missão e reativar os ânimos para enterrar a guerra. Mas como
pode? Nunca! Ora, ora! Se este é o principal carregamento que
ocupa, desde as nossas cabines às nossas cabeças, das trombas aos
trombeteiros, das carroças aos carroceiros e… E… desde as caras,
as velas e veleiros! Quer sejam portuguesas ou quaisquer que
sejam que se atirem nos mares, nos ares ou nos altares, com o
ímpeto mercantilista ou capitalista jamais atenderão o chamado
para a paz. E foi assim que eles abriram fogo contra si, contra
todas e contra todos e assim são, infelizes para sempre.
CAMPOS BELOS
Conhecida também como Inhuporanga, que na tradução
do tupi-guarani expressa o próprio nome, Campos Belos é um
expressivo povoado, distrito pertencente ao município de Caridade,
numa região do estado do Ceará denominada de sertão central, às
margens da famosa rodovia 020, na altura do quilômetro 340, que
liga Fortaleza à Canindé numa distância média de 70 km para
Fortaleza e de 47 km para Canindé. A BR 020 é a que oferece, aos
que saem do Ceará, a opção de saída para o sul e sudeste do país,
sem ter que atravessar o Rio São Francisco, isto é, pelo Planalto
Central via Brasília – DF.
A base econômica de Campos Belos não se difere em
muito da sede do município, que por sua vez não se destoa
sobremaneira dos demais municípios do sertão central cearense,
que com poucas exceções gira em torno das aposentadorias rurais e
programas sociais do governo como o bolsa família e o seguro
safra, dos rendimentos do funcionalismo público municipal,
estadual e até federal, destaca-se a economia informal e
agropecuária extensiva, danosa ao meio ambiente, com excessivos
desmatamentos com vista comercialização da madeira para carvão
e para olarias, etc. Somadas, estas atividades formam a alavanca
que move o comércio e a vida das pessoas e das instituições. A
educação sócio-ambiental no campo não tem sustentação fora de
contexto de luta pela terra e autogestão coletiva Os assentamentos
são as salas de aula da agroecologia.
Esta simpática e até a pouco tempo pacata localidade,
bem entendido, até pouco tempo, porque já se houve comentários
de seus moradores, de que esta dá sinais de intranqüilidade,
principalmente depois da implantação do RONDA DO
QUARTEIRÃO em Canindé. Teme-se que as medidas de
superproteção nas maiores cidades, transformem os povoados
menores em pontos de refúgio para os criminosos.
ONDE SE LOCALIZA PELADA E BOM SUCESSO
Há uma faixa de terra que se inicia estreita nos confins
urbanos de Campos Belos e vai ficando mais larga na medida em
que vai se estirando nos rumos do pé da serra do Maciço de
Baturité. Para se chegar as localidades de Bom Sucesso e Pelada, é
quem vem sentido fortaleza Canindé vai até a pracinha da santa,
entra a esquerda e desce atravessando todo o povoado de Campos
Belos, chegando lá na frente, basta optar novamente pela esquerda,
onde a estrada na localidade de Alto Alegre, já no início da
fazenda, faz uma bifurcação, dando início a duas estradas, ambas
dão acesso ao complexo serrano que forma o maciço, embora as
terminações dessas estradas se dêem em lugares diferentes, pois a
direita vai pela fazenda São Vicente e a esquerda pelo Bom
Sucesso, isto saindo de costas para Campos Belos e a frente para as
serras do maciço, daí andou uns 8 km pela esquerda já está em
Bom Sucesso e a partir de 10 km por diante estará na Pelada. A
comunidade não faz diferença entre os nomes, antes sim, porque
era bastante habitada e os nomes dos lugares identificavam seus
moradores. Costuma generalizar pelo nome da Fazenda que é Bom
Sucesso.
A FAZENDA BOM SUCESSO
Estas terras já foram terras de todos ou terras de
ninguém. Os que se dizem donos hoje exercem um domínio
imaginário. Nós, que aqui vivemos temos uma história de posse,
que não é uma posse fora da terra como fazem os que se dizem
donos desta terra. Somos uma comunidade de pessoas que não tem
uma origem fora desta terra e nem consegue se imaginar fora dela.
Até porque não conhecemos nenhum outro lugar. Tudo para nós é
estranho fora daqui. Aqui nasceram nossos bisavós, avós e pais.
Aqui foi onde nascemos e criamos nossos filhos. Aqui somos
pessoas de todas as idades, velhos e novos que vivemos e
trabalhamos por toda a nossa vida. Conhecemos a história deste
lugar decorada e de pés salteados. Estas terras foram tomadas de
nossos pais numa época em que não havia ganância e nem maldade
da parte deles, mas já existia tudo isso no pensamento e na ação
dos interesseiros, que continuam querendo a esta altura da vida
ainda nos levar no mesmo embalo e quase conseguindo, senão
vejamos: esta região é dominada por posseiros desde há pelo
menos uns duzentos anos. Até onde vai nosso conhecimento o
primeiro fazendeiro que se apossou desta terra foi um tal de
Sucupira que exerceu controle, desde os finais de 1700 até mais ou
menos 1830, este pagava foro destas terras para Portugal, e já tinha
que lidar com os posseiros da região, que era um povo amável e
pacato que vivia de uma agricultura de subsistência, da caça, da
pesca e eram constantemente chicoteados pelos senhores capitães,
pois tinha que trabalhar de graça, as vezes sem ter nem comida em
troca. Nestas regiões os patrões sempre foram brancos mais ou
menos pobretões, mas que tinham que manter a pose, e eles
entraram para o sertão sonhando com os minérios, por isso exercia
seus poderes de rico antecipadamente. Muitos deles tiveram que
retornar para seus lugares de origem pois não encontraram o que
procuravam, as pedras preciosas. Os que ficaram por aqui como o
capitão Dadá, apostaram na criação de gado bovino e uma agricultura baseada na exploração servil, aproveitando uma população de posseiros, que com esses passa a negociar ossos de boi em troca de terra. Ele
fornecia uma perna de boi e a cobrança era feita em terra e todos
aceitavam por medo. Em razoavelmente pouco tempo o capitão era
dono de tudo e os posseiros haviam se tornado em seus sacos de
pancadas. O Capitão Dadá morre em inícios da década de 30 do
século XX (1932?), ficando sua mulher, a Dona Libânia,
administrando a maldita herança. Metade das terras repassou para
filhos e genros, entre eles, estava o doutor Pimentel, seu filho de
criação, foi médico e até governador, fez um hospital, cujo nome
dedicou a sua mãe adotiva. A outra metade negociou como bem
quis, é onde entra na história o senhor Luiz Sampaio que ficou com
Alto Alegre, Bom Sucesso e Pelada. Este como fazendeiro
trabalhou com uma agricultura de subsistência recebendo a meia
do algodão, isto até em inícios da década de 80, quando uma peste
de bicudo atacou o algodoeiro e a fazenda quebrou total, ficando
tudo abandonado, o senhor Luiz Sampaio chamou os moradores
mais velho e entregou a cada qual um papel, dizendo para aquelas
pessoas que cuidassem daquelas terras que a elas pertenciam e
ninguém nunca podia tirá-los dali. Desde então as terras passaram
a ser trabalhadas por um grupo de antigos moradores nascidos e
criados juntos com os seus, plantando todos os anos, fazendo e
recuperando cercas, de madeira, porque não existem nada de
cercas de arame na dita fazenda sem preocupação com renda.
PROVEITO DO SUOR ALHEIO
É o que vem acontecendo há muito tempo. A
posteridade Sampaio com uma prerrogativa de que são herdeiros,
aproveita-se das cercas recuperadas ao longo de mais de 40 anos,
alugando os pastos para gado de fora todos os anos. Estes pastos só
existem porque as cercas são mantidas pelos moradores, que para
plantar tem que mantê-las, e há algum tempo vem causando terror
e colocando todos os empecilhos e obstáculos no cotidiano dos
moradores, principalmente os mais antigos, que andam buscando
recursos em defesa de suas causas. Sabe-se que é cobrado R$
15,00 (quinze reais) de cada gado por mês, e entrarão de 500 reses
pra lá, logo a partir deste mês (setembro 2009), indo até o início
dos plantios (janeiro ou fevereiro), repetindo-se todo o ano. Os que
se dizem donos de quase seis mil hectares não plantam e nem
criam nada, e são os que mais tiram proveito, e tentam a todo
custo cobrar renda dos que trabalham a terra.
IRREGULARIDADES E MARACUTAIAS
Há alguns anos o INCRA vem dando buscas cartoriais
e não está encontrando roteiro legal de grande parte dessas terras
que reconheça alguém como dono. Alguns pedaços de terra foram
negociados, com pessoas nada confiáveis, como por exemplo, os
500 hectares negociados com aquele juiz, o Percival Barbosa, que
matou à queima roupa um trabalhador pai de família em Sobral
injustamente que estarreceu a todas e todos que assistiram aquela
cena no jornal. O Perci Barbosa colocou como administrador dessa
terra nada mais nada menos que o Francisco Maia Cunha, o
Mainha como seu gerente, isto dentro da mesma fazenda Bom
Sucesso. Não se sabe com qual idoneidade como proprietária, essa
família de herdeiro encontrou meio de pedir o despejo de três
famílias que vivem e trabalham ali antes de existir donos.
ATROCIDADES E AMEAÇAS
A comunidade tem passado por momentos tensos, seja de
humilhação, como: dizer que vai impedir que alguém dos jovens
que constituírem família façam suas moradias; enviar normas
escritas, dizendo que de agora por diante a fazenda tem regras;
acusar moradores por desmatamentos, enquanto são eles (os
proprietários) que comandam tais desmatamentos; A comunidade,
inclusive crianças assistira a morte de uma porca a tiros perto da
escola; e as ameaças agora é para os que apóiam a luta de defesa
das vítimas das acusações caluniosas.
SOLLIDARIEDADE
Esta carta abaixo – assinado foi escrita por
movimentos sociais que resolveram entrar nessa queda de braço
contra o latifúndio, e estas famílias só estavam sozinhas até há
pouco tempo. Entendemos que dentro do judiciário há pessoas que
agem com senso de justiça e responsabilidade, é graças a elas que
se tem evitado piores desfechos. Quem conhece as famílias em
questão e escutá-las, vai ficar boquiaberta com o tamanho do saco
que elas tem para agüentarem tantas ofensas.

