Source: Comissão de Direitos Humanos da OAB
Yasmin Kely Barbosa da Silva e Julia Andrade de Carvalho - Vila Aliança
Nos últimos dois meses, duas meninas, Yasmin Kely Barbosa da Silva, de três anos, e Julia Andrade de Carvalho, de oito, foram mortas durante operações policiais na Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Em 20 de março, Julia foi baleada na barriga, enquanto brincava. Levada ao Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, não resistiu ao ferimento e faleceu.
Na manhã de 29 de abril, Yasmim Kely brincava com a avó quando levou um tiro de fuzil nas costas. Chegou morta ao Hospital Albert Schweitzer, para onde foi levada por policiais. A mãe de Yasmim, Roberta Kelly Barbosa da Silva, de 26 anos, grávida de seis meses na ocasião, precisou ser dopada.
Rosângela da Silva, avó da menina, contou que viu quando os policiais entraram na comunidade atirando, mas que não teve tempo nem de correr. “Eles atiraram em direção à comunidade. Quando vi, ela estava sangrando no chão. Implorei para que eles parassem de atirar. Não houve troca de tiros”. Segundo moradores e parentes da menina, PMs do 14º BPM (Bangu) entraram na comunidade atirando. A polícia nega a acusação. “Não era uma troca de tiros. Quando viu a menina morta um dos policiais disse que tinha feito merda", relatou uma testemunha.
Wagner Alves de Carvalho, pai da outra criança, Julia, contou que não viu quem atirou na filha durante uma operação do Batalhão de Choque, mas disse que os moradores não aguentam mais a condição de indefesos, de viver na linha de tiro, quando há operações. "Eu espero que a polícia entre na comunidade para cumprir seu papel, mas pare de nos tratar como lixo. Queremos quebrar esse muro de impunidade". O pai de Yasmim, André dos Santos, de 33 anos, contou que o comandante do 14º BPM (Bangu), coronel Pedro Paulo da Silva, ligou para oferecer ajuda. “Que ajuda eu posso querer. Uma criança morreu. Minha filha está morta”, indagou o pai.
No 1º de maio, após a morte das duas crianças, moradores realizaram ato em protesto na Estrada do Engenho, mas foram impedidos pelos policiais. Os manifestantes chegaram a jogar pedras contra os policiais que revidaram com tiros de fuzil. Um grupo de parentes das crianças, moradores da comunidade e parlamentares reuniu-se no dia 4 de maio com a presidente da comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, Margarida Pressburger, para pedir ajuda na apuração das mortes de crianças atingidas por balas perdidas. Acompanhados de moradores e parlamentares, parentes das vítimas disseram que as operações acontecem sempre em horário de entrada ou saída escolar, quando há muitas crianças nas ruas.
O caso é acompanhado pela Comissão de Direitos Humanos da OAB, que recebeu denúncia dos moradores da Vila Aliança. Estes têm, pelo menos, duas preocupações: o medo de denunciar crimes porque se sentem intimidados, e as ações policiais que, segundo eles, acontecem no horário em que crianças e trabalhadores estão saindo de casa.
