Michel Antônio de Oliveira da Silva - Ramos
Há dois anos, no dia 05 de abril de 2008, desaparecia, na Praia de Ramos, Michel Antônio de Oliveira da Silva. Michel, 20 anos, era ajudante de caminhão e às vezes também trabalhava com sua mãe em um estacionamento, como guardador de carros e tinha uma filha pequena. Foi torturado, morto e teve o corpo desaparecido por milicianos de Ramos. Há relatos de moradores e familiares de vítimas de que há uma grande quantidade de pessoas desaparecidas em Ramos em razão da ação de milicianos. O silenciamento imposto pelos milicianos impede que muitos familiares possam denunciar os casos.
Dona Ana Lúcia de Oliveira, mãe de Michel, só conseguiu encontrar o corpo meses depois do desaparecimento, graças à sua persistência nas buscas. Depois de passar meses peregrinando por delegacias de polícia, hospitais e IML’s, tornando-se já conhecida nestes lugares, dona Ana Lúcia conseguiu fazer o reconhecimento do filho a partir de uma foto exibida no computador do IML e identificou que se tratava de seu filho por meio de um chaveiro que ela o havia presenteado no dia de seu aniversário, onde estava escrita a palavra “Jesus”, e pela tatuagem que ele tinha nas costas.
No IML, dona Ana ficara sabendo que o corpo do filho havia sido encontrado na praia da Ilha do Governador, em estado de decomposição depois de ter ficado nove dias dentro d´água. Mesmo com todo sofrimento e dor que sentia e que quase a impedia de agir, Dona Ana ainda teve que arrumar forças para correr atrás das burocracias a fim de conseguir identificar o corpo através de um exame de DNA, senão ainda teria que ver o filho enterrado como indigente. Quando chegou o momento de ver o corpo do filho de perto, no IML, o funcionário recomendou a dona Ana Lúcia que não olhasse porque iria sofrer ainda mais com a imagem que veria. E realmente a cena foi tão forte que abalou dona Ana Lúcia de uma tal forma que durante o enterro não teve mais força para acompanhar a descida do caixão: o corpo estava sem cabeça.
Há relato de outro caso, também em Ramos, de uma mãe, conhecida de dona Ana Lúcia inclusive, e cujos filhos também se conheciam, que encontrou apenas a cabeça do filho sem o resto do corpo e conseguiu provar que era seu filho através do exame de DNA, mas neste caso o filho foi enterrado como indigente e a mãe ainda hoje não conseguiu o atestado de óbito. Dona Ana Lúcia se queixa e protesta contra o despreparo dos funcionários das repartições públicas, principalmente quando se trata da polícia, em lidar com seu sofrimento e sua indignação.
O Brasil é um país atrasadíssimo na discussão sobre desaparecimento forçado de pessoas, a começar pelos desaparecidos políticos, uma questão até hoje não resolvida e ponto polêmico e incômodo no programa de direitos humanos de todos os governos pós-ditadura e que prossegue agora durante o governo Lula. Enquanto isto muitos familiares, de ontem e de hoje, prosseguem as rotinas agonizantes de busca, sem praticamente nenhum acesso aos serviços de justiça ou a algum tipo de acompanhamento psicológico. São as mortes sem sepultura de um luto permanente. Dona Ana Lúcia passou a participar da militância pelos direitos humanos, onde tem encontrado espaço para socializar sua dor e politizar sua luta.
