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2009-06-03

“Caso Barbeiro” – São Gonçalo

No dia 17 de março de 2007, o jovem Douglas Cabral Fidélis, de 21 anos, foi brutalmente assassinado, dentro da própria casa, no bairro Luiz Caçador, em São Gonçalo.

No dia 17 de março de 2007, o jovem Douglas Cabral Fidélis, de 21 anos, foi brutalmente assassinado, dentro da própria casa, no bairro Luiz Caçador, em São Gonçalo. Ele e a esposa, acompanhados de um casal de amigos, assistiam a um filme na residência, quando quatro homens encapuzados invadiram o local, torturaram o rapaz e o executaram na cozinha. De acordo com testemunhas, os criminosos questionaram a vítima sobre a localização de uma arma e de bandidos da região. Diante do desconhecimento do rapaz, os homens o espancaram, assassinando-o em seguida a tiros e facadas.

O crime chocou os moradores do bairro, onde o jovem era popular por trabalhar em uma barbearia de sua propriedade. Dois meses depois, o “Caso Barbeiro”, como ficou popularmente conhecido o crime praticado contra Douglas, ganharia maior repercussão após as investigações da Polícia Civil sobre a possível autoria do crime: um grupo de extermínio, formado por policiais militares e civis, responsável por pelo menos 100 homicídios em São Gonçalo.

Segundo as investigações, o grupo agia em pelo menos seis bairros do município (Itaúna, Luiz Caçador, Nova Cidade, Trindade, Boassu e Salgueiro), executando supostos criminosos da região e extorquindo comerciantes, através da imposição de uma taxa ilegal pela segurança dos estabelecimentos – prática atualmente atribuída a grupos paramilitares conhecidos como milícia. Além do assassinato de Douglas, um dos crimes de grande repercussão atribuído ao bando, assim caracterizado por sua barbaridade, foi a morte de um suposto dissidente, o bombeiro voluntário João Victor da Cruz, encontrado degolado em janeiro de 2007, o que demonstra a crueldade e o terror imposto pelo grupo na região.

Por trás das investigações, que fechavam o cerco à quadrilha, estava a luta incansável de uma mãe que não media esforços para auxiliar a Polícia na identificação dos responsáveis pela morte do seu filho e a possível motivação do crime. Maria Zélia Cabral Fidélis, a mãe do barbeiro, rompeu o silêncio imposto por esse grupo aos moradores da região e levou aos policiais o nome daquele que era apontado como suposto autor do crime e líder de um dos maiores grupos de extermínio da história de São Gonçalo: Rodrigo Soares Rangel, o Rodriguinho, de 26 anos.

Entretanto, antes de chegar aos autores do crime e sua verdadeira motivação, Maria Zélia teve que cortar na própria carne, investigando a hipótese de envolvimento do filho com o tráfico de drogas e a possibilidade de crime passional. Tais suposições levaram-na ao encontro do gerente do tráfico de drogas de uma das favelas mais perigosas de São Gonçalo, o Complexo do Salgueiro, onde descobriu que o filho não possuía qualquer vínculo com esse tipo de atividade criminosa e que ele teria sido assassinado por um homem conhecido como Rodriguinho ou Mandado.

De acordo com a Polícia Civil, Rodriguinho agia na região sob o respaldo de policiais militares corruptos, que lhe garantiam, inclusive, o poder de andar fardado na viatura da PM, além de emprestar armas e carros para a prática dos crimes. Em mais de oito horas de interceptações telefônicas da “Operação Caçador”, ele é flagrado conversando com policiais militares e outros comparsas.

Foi através de uma dessas conversas que os policiais chegaram ao esconderijo de Rodriguinho, no bairro Apolo 3, em São Gonçalo, onde foi preso no dia 06 de junho de 2007. Porém, isso não foi suficiente para Maria Zélia, que insistia junto a polícia a prisão de todos os envolvidos na morte do seu filho. A cada dia, por conta própria, ela chegava com novas informações sobre supostos participantes do bando.

A partir da prisão de Rodriguinho, mais nove nomes surgiram durante as investigações e todos acabaram presos, entre eles cinco policiais militares. São eles: Rosival Costa Filho, de 28 anos; Rubens Rodrigues Nunes, o Rubinho, 27; Juvenal Custódio da Silva, o Rato, 21; Clayton Vieira Carvalho, 26; os soldados Vagner de Souza e Souza, Felipe Augusto Wedersroque de Souza, Eduardo Henrique Eugênio e Denis Almeida de Oliveira; além do sargento Cláudio Germano da Silva.

A motivação do assassinato de Douglas permaneceu incógnita durante algum tempo. Entretanto, as investigações apontavam mais indícios da participação de agentes públicos, no caso policiais militares, como os responsáveis pela logística do grupo, inclusive com o empréstimo de armas do próprio batalhão para a prática de assaltos e homicídios. E foi uma dessas armas que pode ter sido a principal causa da morte de Douglas.

De acordo testemunhas, duas semanas antes de ser assassinado, Douglas trabalhava em sua barbearia, quando Rodriguinho e outros integrantes da quadrilha resolveram se refugiar no estabelecimento comercial, após a prática de um homicídio na região. Rodriguinho teria escondido uma pistola, arma que teria sido emprestada por um policial militar e pertenceria ao 7º BPM (São Gonçalo), na barbearia de Douglas, mesmo diante da recusa do jovem. Dias depois, um dos bandidos, identificado apenas como Belo, teria resgatado e sumido com a arma sem comunicar a Rodriguinho. A culpa do desaparecimento da pistola da corporação caiu sobre o jovem barbeiro, que acabou sendo assassinado.

Com a aproximação do julgamento dos acusados pela morte de Douglas, que deve ocorrer em agosto de 2009, Maria Zélia sente-se cada vez mais ameaçada e teme por sua morte, já que não conseguiu qualquer auxílio nos órgãos de proteção a testemunhas e continua morando em São Gonçalo. Ela também cobra maior rigor na apuração do caso, pois há indícios da participação de outras pessoas na quadrilha, que continuam em liberdade.

Estatísticas revelam o poder imposto pela quadrilha na região

Após a desarticulação do grupo houve uma redução de aproximadamente 80% nos homicídios na região.

•Abril de 2006 a março de 2007: 64 homicídios, 90 % deles ligados ao grupo de extermínio.

•Abril de 2007 a março de 2008: 14 homicídios.

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