Juliano de Jesus Leôncio - Vidigal
No dia 25 de agosto de 2005, uma operação do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar), na favela do Vidigal, resultou na morte de Juliano de Jesus Leôncio. Por volta das 18 horas, mais de uma viatura do BOPE chegou no Vidigal e policiais entraram na favela atirando. Os moradores tiveram que subir a favela correndo, largando as bolsas que carregavam pelo caminho, na tentativa de fugirem dos tiros. A rua estava cheia porque, nesse horário, muitas pessoas estão voltando do trabalho e crianças voltando da escola.
Juliano se dirigia para casa a pé quando se deparou com a correria dos moradores e, sem saber o quê acontecia, também correu. Foi atingido por um tiro na perna e caiu. Enquanto ele estava caído, policiais se aproximaram dele e, depois de um breve interrogatório, terminaram a execução, conforme o relato do pai de Juliano:
“Deram um tiro na perna dele, nisso ele caiu e começaram a fazer um monte de pergunta pra ele. ‘Cadê os caras? Você sabe quem é’, ‘Perdeu’, ‘Vai entregar todo mundo!’, e ele gritando, desesperadamente: ‘Não sei de nada, to indo pra casa da minha mãe’, nisso, logo após eles [os policiais] pegaram e deram mais dois tiros no menino, que foi no queixo e outro no pulmão. Aí depois disso, eles pegaram o menino e botaram dentro de um saco, arrastaram ele pela escada e botaram dentro do carro deles, da própria Blazer da BOPE”.
De acordo com a versão dos policiais, a incursão no Vidigal aconteceu para “atender uma prioridade solicitada pelo 23º Batalhão da Polícia Militar (BPM), pois havia troca de tiros entre policiais e traficantes” no local, onde encontraram um “homem agonizando, com ferimentos a PAF, tendo inclusive grave ferimento na perna esquerda.” O policial que fez a ocorrência afirmou ainda que o “ato seguinte” foi colocar o homem na viatura e levá-lo para o Hospital Miguel Couto. Entretanto, os depoimentos das testemunhas negam essa versão. A ênfase na gravidade do ferimento na perna, ocultando os demais ferimentos graves pode ser questionada a partir do próprio atestado de óbito da vítima, no qual a causa da morte se resume a: “Ferimentos transfixantes de pulmão direito e vértebras cervicais. Projéteis de arma de fogo”. É importante registrar que os policiais sumiram com as roupas da vítima e que, caso tenha sido feito, o laudo cadavérico não foi apresentado à família da vítima. Durante o reconhecimento do corpo, o pai de Juliano observou que seu rosto estava ralado (provavelmente por ter sido arrastado pelas escadas) e que seu maxilar estava deslocado, como se tivesse levado um soco na boca.
Nessa mesma incursão, um senhor que morava no Vidigal foi agredido verbalmente e fisicamente pelos policiais, tendo, por esse motivo, sofrido um infarto que causou, imediatamente, sua morte. Paulo César, pai da vítima, conta que no mesmo dia desta incursão, alguns policiais da BOPE se dirigiram a ele em tom ameaçador, dizendo: “Você escapou, negão”. Uma das testemunhas do assassinato (que aceitou depor a pedido da Promotoria do Estado), no intuito de defender Juliano dizendo que ele não era traficante, também foi ameaçada pelos policiais, tendo que obedecer à seguinte ordem: “Entra, se não tu vai morrer junto com ele!”.
Juliano e seus amigos já vinham sofrendo ameaças de policiais há bastante tempo. Normalmente quando voltavam do jogo de futebol – que acontece numa quadra na própria favela – os meninos levavam tapas na cara (chegando em casa com o rosto marcado), chutes e socos dos policiais, além de sofrerem agressões verbais. Muitas vezes Juliano teve que ser atendido na escola onde estudava, por ter sido agredido pelos policiais no caminho percorrido. Juliano apresentava dificuldades no aprendizado por conta de distúrbios neurológicos; fazia tratamento psiquiátrico no Instituto de Neurologia Deolindo Couto e não conseguia passar da 4ª série do ensino fundamental, cursando, portanto, esta mesma série na Escola Municipal Almirante Tamandaré.
O irmão de Juliano (que está com 12 anos de idade) tem tido problemas psicológicos, sente raiva quando vê os pais chorando e está perturbado pela idéia fixa de vingar a morte do irmão. Após a morte de Juliano, sua mãe não consegue mais trabalhar e passou a tomar calmantes: as receitas médicas incluem remédios caros de traja preta, evidenciando, por um outro ângulo, os danos causados pela violência policial.
A equipe de policiais do BOPE que realizou tal incursão foi substituída depois desse episódio, mas, mesmo assim, os moradores que presenciaram o assassinato estão com medo de serem reconhecidos e sofrerem ameaças. O novo grupo de policiais ronda o beco onde ocorreu o assassinato e marcam os rostos dos moradores. Uma das testemunhas de mudou da favela dois dias após o assassinato, por medo das ações da polícia. Os pais de Juliano não passam mais pelo beco; preferem dar uma volta maior na favela para chegar em casa. O caso de Juliano está sendo acompanhado pela Promotoria Pública/Estado do Rio de Janeiro.
