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2002-11-21

Hanry Silva Gomes de Siqueira - Complexo do Lins

No dia 21 de novembro de 2002, Márcia de Oliveira Jacintho falou pela última vez com seu filho, Hanry Silva Gomes de Siqueira, 16 anos, quando se preparava para sair de casa e levar a neta ao médico. Não o reencontrou mais tarde quando voltou para sua residência, no Morro do Gambá, Complexo do Lins e Vasconcelos, Zona Norte do Rio. Mas não se preocupou muito, pois Hanry estudava à noite (entrava na escola às 18:20h). Somente ao acordar no dia seguinte, e descobrir que o filho não dormira em casa, pressentiu a tragédia que modificou para sempre sua vida.

À tarde Hanry fora ao barbeiro e por volta das 15h encontrou seu amigo Thiago, com quem conversou um pouco. Disse-lhe que vinha da casa de outro amigo, Victor, que iria para casa para depois ir à escola, e de fato tomou caminho de casa através de uma trilha em uma área na comunidade Boca do Mato, onde crianças normalmente soltam pipa, e que é o caminho mais curto para se chegar às casas do Morro do Gambá onde fica a de Márcia.

Anderson, mais um amigo de Hanry, estava justamente soltando pipa no alto do morro, quando o viu pela trilha indo para casa, com chaves na mão. Pouco depois, após as 17h, viu duas viaturas da PM entrarem na comunidade pela Rua Malfe, das quais descerem policiais que entraram pelo mato. Um policial falou que recolhesse a pipa e fosse embora. Quando Anderson já se dirigia para casa, ouviu uns poucos tiros vindo de onde os policiais estavam. Os mesmos tiros, disparados entre 17 e 18h, também foram ouvidos por Márcia (que já estava em casa), a irmã de Hanry, Patrícia Silva Gomes dos Santos, Thiago, Victor, e muitos outros moradores. Todos concordaram em seus depoimentos que foram no máximo três tiros e que nenhum outro tiro ou tiroteio foi ouvido naquele dia no morro.

Entre os moradores que ouviram os tiros estava Paulo, que estava em casa por volta de 18h quando apareceram dois PMs (um deles com touca ninja) e mais uma pessoa pedindo por um lençol. Paulo disse que o lençol que tinha era para cobrir seus filhos, então os policiais entraram no quintal de uma vizinha, pegaram um lençol que estava no varal e foram embora subindo o morro. Pessoas que se encontravam na Rua Pedro de Carvalho viram mais tarde policiais descendo o morro com um corpo enrolado em um lençol.

Os policiais que participaram da “operação” deram entrada do corpo de Hanry, já cadáver, às 20h no Hospital Salgado Filho. A versão que apresentaram era que por volta das 19:40h foram recebidos a tiros por bandidos na favela, que houve “intensa troca de tiros” com “marginais” que estavam na parte alta do morro, e que encontraram Hanry baleado no peito, com um revólver na mão e uma trouxinha de maconha ao lado. Segundo eles, haviam imediatamente “socorrido a vitima”, e que ela ainda chegara com vida no hospital. A versão padrão utilizada por policiais em casos de execução sumária, com direito ao “kit bandido” (armas e drogas que são “plantadas” nas vitimas). Registraram sua morte na 25a DP como “auto de resistência”.

O que os policiais não esperavam é que as contradições e farsas de sua versão seriam desmascaradas pela incansável luta de Márcia, a partir do momento em que pressentiu que seu filho fora assassinado. Ao acordar no dia seguinte e perceber que o filho não dormira em casa, saiu quase desesperada batendo de casa em casa e buscando informação, até que lhe contaram o que havia acontecido e que um morto com bermuda preta havia dado entrado no Salgado Filho. Foi ao Hospital, depois ao IML onde confirmou a morte de Hanry. Enquanto isso, Victor, sabendo do desaparecimento do amigo, foi até a trilha e encontrou as chaves e sandálias de Hanry, e uma mancha de sangue numa pedra.

Márcia desesperou-se, adoeceu, foi internada várias vezes, mas encontrou forças para lutar por justiça. Diante das falhas, omissões e má-vontade dos inquéritos e do poder judiciário, foi ao mesmo tempo detetive, mensageira, repórter, perita, advogada, e sempre mãe. Um laudo pericial confirmou que Hanry foi baleado de cima para baixo, e um único tiro disparado de perto atravessou seu coração e pulmão esquerdo e o matou. Reuniu e incentivou testemunhas e provas, buscou a imprensa e uniu-se a outras mães e familiares de vitimas. Em novembro de 2006 o Ministério Público finalmente ofereceu denúncia por homicídio e fraude processual (devido à utilização do “kit bandido”) contra os policiais Paulo Roberto Paschuini e Marcos Alves da Silva, os dois que segundo depoimento e exame das armas haviam efetuado tiros naquele dia 21/11. Mesmo deixando de fora outros nove policiais que haviam participado da “operação” e de alguma forma foram cúmplices, essa foi uma primeira vitória de Márcia e de todos que apóiam a sua luta, assim como a luta de todas as outras mães, pais, parentes e amigos de pessoas cruelmente assassinadas pelo Estado no Rio de Janeiro.

Em 12/08/08, realizaria-se o julgamento dos policiais envolvidos. Entretanto, tal não ocorreria, pois o advogado de Marcos Alves não compareceu, o que levaria o juiz a adia-lo.

O advogado de defesa de Marcos Alves da Silva tentara, ao que tudo indica, uma manobra jurídica com a intenção de desvincular o caso de seu cliente do de Paulo Roberto Paschuini para, desta forma, adiar o julgamento e facilitar a absolvição ou a diminuição da possível pena. Já a Defensora Pública, que se responsabilizava por Paulo Roberto insistia que o julgamento continuasse, a despeito do pedido do advogado de defesa. O juiz não aceitou e adiou o julgamento para o dia 02/09/2008.

Foi então que um fato novo surgiu: o promotor do caso, ao levantar a ficha criminal dos réus, descobriu que Marcos Alves da Silva respondia por roubo a mão armada desde 1998.

O júri decidiu pela condenação de ambos. O juiz sentenciaria Marcos (que confessou ter sido o autor do disparo) a nove anos de prisão por homicídio e fraude e Paulo Roberto (por ter forjado provas para “justificar” a ação policial) a três anos e dois meses, também por fraude. Este último responde em liberdade, enquanto Marcos foi preso não pela morte de Hanry, mas pelo crime anteriormente cometido.

A luta de Márcia Jacintho não parou com esta vitória particular. Hoje em dia luta para que outras mães não precisem passar pelo que ela passou. Atualmente milita na Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e costuma dizer que em nome da luta pela defesa da vida não vai se calar.

Esse, como os outros relatos que estão nesta página, é apenas um resumo para demonstrar a conduta criminosa dos policiais quando atuam em comunidades pobres. Mas não dá nem uma idéia do sofrimento e da tragédia que causam em milhares de famílias. Para nos aproximarmos um pouco que seja desses dramas humanos, temos que recorrer a relatos e depoimentos diretos das pessoas atingidas, como os da mãe e da irmã de Hanry.

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