200 Anos de Violência e Opressão x 200 Anos de Resistência Negra, Indígena e Popular
Já está presente na grande mídia e nos calendários governamentais a comemoração oficial dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Sem nenhum senso crítico histórico, exalta-se a “civilização” que esse fato teria trazido ao território colonizado que se tornaria o Brasil, e às suas populações. A corte portuguesa, transferida em massa para cá devido às Guerras Napoleônicas, quis sem dúvida trazer um pouco da “civilização” européia a que estava acostumada em Lisboa.
Entretanto, o que não se diz é que a corte e a família real encontraram aqui um território marcado pela mais brutal exploração e opressão sobre os povos indígenas e africanos escravizados. A vinda da “civilização” européia em nada mudou esse fato, pelo contrário, depois de 1808 aumentaram bastante o tráfico de escravos e a invasão de terras indígenas com extermínio das populações originárias.
A corte estabeleceu-se no Rio de Janeiro, que já era o principal porto de desembarque do tráfico de escravos. Deparou-se com uma cidade cuja população era 1/3 escrava, a maior parte africana. Escravos e libertos (ou seja, negros) eram mais da metade da população. A chegada da corte aumentou abruptamente a proporção de brancos, mas estimulou ainda mais a importação de escravos. Já em 1821 a população escrava dobrara em números absolutos, e era praticamente a metade de todos os habitantes da cidade. Claro que, para essa metade da cidade, a “civilização” européia significava algo muito diferente…
Os portugueses que vieram com o rei, e os brancos que já viviam aqui tiveram que criar formas de controlar essa enorme população negra e escrava, grande parte falando línguas e com costumes africanos. Uma das primeiras medidas foi criar a polícia, fundada em abril de 1808 (Intendência Geral de Polícia, atual polícia civil) e em maio de 1809 (Guarda Real, origem da atual Polícia Militar).
Passaram-se dois séculos, a escravidão foi formalmente abolida, a composição da população da cidade mudou, instituições surgiram e desapareceram, mas a polícia criada pela corte portuguesa atravessou a história sem nenhuma ruptura institucional. Ainda hoje, serve como chibata e pára-choque, entre a população de origem e cultura “européia”, e a população pobre que descende dos antigos escravos e indígenas, ou que convive, nas favelas e periferias, com esses descendentes.
É impossível entendermos a atual e brutal violência policial no Brasil, bem como a infame desigualdade social que a acompanha, sem entendermos a verdadeira história desses 200 anos. É por isso que, inspirados no grande movimento popular “Outros 500”, que em 2000 questionou as comemorações oficiais da chamada “descoberta” do Brasil, que a Rede está propondo a campanha Outros 200, que, em particular, revele a visão dos setores historicamente reprimidos, sobre a instituição policial e o que ela significa para a manutenção dessa injusta, desigual e racista sociedade em que vivemos.
A campanha prevê seminários e atividades culturais, mas também encontros dos movimentos sociais que resgatem a Resistência Negra, Indígena e Popular (outro lema dos “Outros 500”) e avancem na organização popular contra a violência institucional.
Já recebemos manifestações positivas sobre a participação na Campanha de organizações de vários estados, como o Observatório das Violências Policiais (SP), o Comitê Goiano pelo Fim da Violência Policial e a Associação de mães e familiares de vítimas de violência do Espírito Santo, além de várias organizações e grupos do Rio. Ao nível internacional, temos o apoio das organizações que participaram da da oficina “Violência Policial Racista”, realizada em Rostock (Alemanha) em junho de 2007, por ocasião dos protestos contra a reunião do G8 (em que a Rede esteve presente), do Comitê Suíço de Apoio aos Direitos Humanos nas Favelas do Rio de Janeiro e da Iniciativa Angolana Antimilitarista para os Direitos Humanos, organização de refugiados angolanos na Alemanha.
Para dar continuidade à discussão e organização das atividades, estamos convidando você, sua organização ou movimento para uma próxima reunião, na data e local abaixo:
Data: Quarta-feira, 20/02/2008
Hora: 18:00h
Local: Associação de Moradores da Rocinha (UPMMR)
Endereço: Travessa União, 37 – Rocinha

