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2007-03-23

Dulcinéria Pereira da Silva (10-05-1963 / 18-03-2007)

Dulcinéria era mãe de cinco crianças e também de Júlio César Pereira da Silva, assassinado aos 16 anos por policiais em 07/01/2004, junto com outros quatro jovens, no que ficou conhecido como chacina do Caju.

Após o assassinato, juntou-se com outras mães do caso na luta por justiça, e passou a militar também na Rede. Prestou depoimento no documentário "Entre Muros e Favelas" e fez parte da comitiva da Rede que esteve no Fórum Social Mundial em janeiro de 2005.

Além da luta contra a violência do Estado, Dulcinéria, chamada também de Lúcia por parentes e amigos, também participava ativamente das mobilizações de sua comunidade contra a pobreza e a injustiça a que os moradores de favelas estão submetidos. Participava ativamente da luta contra o fechamento do posto municipal de saúde Dr. Fernando Braga Lopes, cuja área de atendimento totalizava mais de 50 mil pessoas. Participou da manifestação do dia 29/01/2006, fechando a Rua Carlos Seidl, que foi brutalmente reprimido pela PM. O posto acabou sendo fechado, e a comunidade para ter atendimento médico tem que se deslocar para unidades distantes.

Ironicamente, foi esse descaso público com a saúde que acabou levando Dulcinéria à morte. Ela, que já vinha desanimada e deprimida há meses pelo caso da chacina de 2004 não avançar na justiça, foi internada no dia 12/03 e o diagnóstico preliminar indicou meningite e tuberculose. Seu corpo frágil e doente não resistiu e ela faleceu na madrugada do dia 17 (sábado) para o dia 18 (domingo).

Dulcinéria, Lúcia, deixa para todos nós a imagem de uma mulher de favela sofrida e maltratada, mas também de uma lutadora, uma combatente na criação dos filhos, na denúncia a policiais assassinos e nas manifestações de rua pelos direitos de sua comunidade.

Ninguém melhor que ela mesmo para falar de sua vida e sua luta. O texto a seguir foi registrado por ela, com suas próprias palavras, cerca de um ano após a chacina de 2004.

Dulcineria


Essa é a minha vida de sofrimento. Perdi meu marido fiquei grávida de seis meses, foi muito díficil para mim uma mulher sozinha sem saber oque fazer sem emprego num lugar distante sem conhecer níguem morando de aluguel numa casinha de estoque trabalhando para meu próprio sogro parp ganhar um prato de comida para mim emeus filhos.

Depois de eu sofrer tanto o Marcelo foi me visitar ali viu meu sofrimento e não pensou duas vezes e falou que ia me tirar daqui e ali ele foi embora de coração partido de me ver naquela cituação. Depois de uma semana ele veio buscar eu e meus filhos e me trouxe para morar na casa dele, o Augusto veio me procurar para eu trabalhar na Cooperativa fiz curso Cooperativismo e fui trabalhar na Maternidade Escola, consegui um terreno graças a prefeitura no Caju onde eu sempre morava comprei as minhas coizas meu filho Julio tinha 9 anos, Josiane ccom 3 anos, Jefersom com 10 meses.

Daí então cosegui um barraquinho nem banheiro tinha eu me mudei quando morava com Marcelo para morar no meu barraquinho no trabalho eu conheci o Romulo foi uma pessoa muito legal, conheci a mãe e dele que e geralmente uma pessoa muito boaque me ajudou a mim a construir a minha casa daí tentei ser feliz com tudo que eu já tinha passado mas não sabia que o destino tinha reservado pra mim o Julio cresceu ficou um adolescente que estudava era um menino responsável feiz curso no quartel compria com as suas obrigações e era um menino alegre cheio de vida tinha tudo na vida para ser feliz conhecu uma garota e se apaixonou ela estudava na mesma escola que ele, mãe so quer ver o bem para seu filho eu falava para ele “meu filho você esta muito novo para namorar sério’’! A garota se apaixonou por ele era adolescente também. Ela veio de casa para morar com ele na minha casa eu não queria aceitar. Depois a garota engravidou ele não tinha emprego e ajudei a ele tirar os documentos e estava ajudando sempre como podia o desejo dele era coseguir um emprego.

Karina nove meses de barriga no dia no dia que Julio de casa falando que estava atrasado para uma partida de futebol mas já era 8:00 da noite eu falei pra ele que estava tarde e ele falou que ia ir mas não ia demorar efalei que a favela estava de policia e ele falou que não devia nada pra eles, e ai foi ao encontros de seus amigos depois de umas horas saiu uns tiros eu fiquei preucupada e fui atás dele, encontrei ele em frente o mercadinho Ribeiro com seus amigos, falei filho vamos pra casa e ele falou que depois ia e essa foi a ultima vez que falei com o meu querido filho. Depois ouvir mais tiros mas não sai de casa, e desconfiei que o Julio nunca chegava no outro dia em casa foi quando um amigo chegou procurando por ele e eu respondi que o Julio não estava em casa e ele falou que onde os meninos estavam estava cheio de sangue e que os moradores falaram que os policiais chegaram atirando sai de casa que nem uma louca procurando o meu filho fui em todas as casas de seus coleguinhas e não o encontrei fui até a 17 DP e lá fui enformada que os rapazes que estavam baleados foram para o Souza Aguiar, ao chegar lá fui informada que os rapazes que foram baleados foi levados para o IML.

Eu não queria acreditar que fosse meu filho naquele momento eu não sentia mas o chão nos meus pés não sei nem como conseguir chegar no IML. Fiquei esdperando o moço vir me atender quando ele me chamou fiquei em frente ao computador quando o moço sentiu que eu estava muito nervosa mandou eu sentar numa cadeira e ele foi passando todas as fotos e ai passou ado meu filho eu pedi para voltar a foto por que não queria acreditar ele alocalizou a foto de novo e eu dei um grito e queria morrer não queria acreditar meu filho estava morto eu queria ficar perto dele eu queria sentir ele eu queria pegar ele, foi um dia de horro o mais difícil foi chegar em casa com a notícia para os irmãos deles.

Dali e diante a minha vida acabou a minha família ficou detonada e eu não consigo mais ficar em casa fico nervosa por qualquer coiza tem dia que parece que eu vou enlouquecer. De tantos problemas Romulo enlouqueceu de vez chegou o ponto de sair de casa e mindigar na rua, esse e o meu sofrimento de ve-lo asssim e não poder ajudá-lo era um homem bom trabalhadorme ajudava e hoje em dia ele se encontra assim dessa forma louco. Formei um movimento com a Bheti e é assim que agente vive, muitas pessoas não etendem o que é uma assossiação de mães que perderam o seus filhos. Hoje em dia eu vivo dessa forma trabalhando buscando outras maneiras de viver para monstrar que somos capaz de fazer um trabalho social dentro ndas nossas comunidades e o que eu digo lutar ate o fim e assim que nos mães vivemos com as sequelas que ficou em nossas vidas, eu choro quando olho para meu netopor que o pai não teve o direito de conhecer o seu filho, eu não sei que o natal foi este ano para mim porque estava faltando um do meus filhos e muito triste saber que omeu filho nunca mais vai voltar.

O ano novo foi díficil para mim seria o novo ano que se iniciava quando o meu filho faria um ano de morto. Fizemos uma caminhada pela paz ai eu pergunto as autoridades competentes que ate hoje não me deram aresposta do acontecido da minha vida eu vou lutar sem parar esta e a nossa forma que numca vamos esquecer nossos filhos “Grito de paz violência nunca mais’’.Dor que nunca vai acabar enquanto eu viver. Dor da saudade Julio Cezar.

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