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2009-09-27
Source: Fazendo Media

Sem o direito à vida, de que adiantam os outros direitos humanos?

Entrevista de Maurício Campos, publicada na versão impressa do Fazendo Media

Matheus tinha oito anos e foi morto quando saía de casa para comprar pão. Wellington tinha 11 e, junto com Luciano, Edmilson, Maicon e Wedson, foram executados pela polícia num final de tarde de sábado. Todos moradores de favela e negros. É para que casos como esses não virem simplesmente estatísticas ou conseqüência de “troca de tiros” pelas vozes da grande mídia que a Rede de Movimentos e Comunidades Contra a Violência vem atuando desde 2003. O movimento reúne familiares de vítimas da violência do estado e militantes de movimentos sociais. Maurício Campos, da Rede, fala ao Fazendo Media de uma forma muito clara sobre a situação de uma população em risco constante de vida, mesmo que já tenham se passado 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por Eduardo Sá, Jéssica Santos, Leandro Uchoa, Mariana Vidal e Raquel Júnia

Nesses cinco anos que a Rede existe você acha que tem piorado a violência policial?

Se pegarmos em termos quantitativos a violência policial e a política do Estado de justificar e pregar abertamente essa violência, tem piorado. Mas, por outro lado, a reação tem se tornado mais organizada também. Agora já existe um trabalho anterior de denúncia, de, inclusive, prevenir com denúncias uma situação que pode resultar numa tragédia. Foi o caso, por exemplo, da Providência, isso a gente tentou fazer logo no início quando sentimos qual era o caráter da ocupação do exército. Fizemos várias denúncias, mas infelizmente a grande imprensa e os órgãos oficiais não tomaram nem conhecimento; só depois que aconteceu o caso dos rapazes que foram seqüestrados e entregues na outra favela. Tem havido uma resposta da sociedade civil maior, principalmente das próprias comunidades. Mas não tem sido suficiente para alterar o curso da instituição policial e da orientação política do governo.

Há sempre manifestações contra o policial, contra o governo, mas você acha que já existe nas comunidades uma consciência de se manifestar também contra essa grande imprensa que você citou e que legitima a ação da polícia?

Quando acontece uma situação de risco à comunidade, e a gente aprendeu isso no dia-a-dia na militância, a presença da imprensa no momento do confronto, mesmo a imprensa que distorce e mente, é importante. Porque de uma maneira ou de outra, apesar de tudo, isso impede algumas ações da polícia. Por mais que seja uma imprensa parcial, o policial já fica preocupado aonde vai parar alguma coisa que a imprensa filme. Tanto que a polícia geralmente já sabe trabalhar isso e não deixa a imprensa agir independentemente. A polícia normalmente quer levar os seus jornalistas de confiança quando faz uma operação e sempre no momento que ela queira. Uma vez eu estava indo para o Jacarezinho fazer uma reunião com o pessoal de lá, cheguei na entrada e havia uma quantidade muito grande de viaturas da polícia civil, mais de vinte, aí pensei: “tá tendo operação”. Liguei lá para dentro para o pessoal que eu ia encontrar e perguntei: “o que está acontecendo?” “Ih, é uma operação aqui, agora está mais tranqüilo, pode vir”. Deixei o carro um pouco afastado e fui entrando e tinha pelo menos uns dez jornalistas na entrada da favela e não entravam. Praticamente colados com os oficiais. E quando me viram passar, alguns me conhecem: “ué, você vai entrar?” Eu falei: “por que não?” Ou seja, na verdade, só agem no espaço que a polícia indica. Depois eu entrei, aí a operação realmente estava um pouco menor. Mas o caminho estava meio estranho, as lojas estavam todas fechadas e eu cheguei a passar por um grupo de policiais que estavam com um grupo de quatro pessoas algemadas. Eu falei: “não está tão tranqüilo”. Então eu fui lá para o espaço do Café Internet que fica na praça da Concórdia e fiquei esperando. Era um prédio um pouco alto que dava para ver a praça, lá estavam os policiais e tinha também um jornalista com colete à prova de balas, capacete, e no colete não estava escrito imprensa, estava escrito press. Falei: “pô, o cara deve estar se sentindo no Iraque”. O cara chegou para falar com os policiais civis, para mim ia perguntar se podia filmar algum lugar e o cara bateu continência, ah, que é isso? Mas a comunidade sabe que é importante a presença da imprensa. A gente aprendeu, inclusive, com o pessoal da favela, que apesar da orientação editorial, existem jornalistas bem intencionados. Eles não têm grande poder, mas conseguem alguma coisa, conseguem colocar as versões que geralmente a editoria não quer que se coloque. Isso mudou de algum tempo para cá, antigamente era só a versão da polícia, tinha imprensa que nem se preocupava em ir ao local. Isso mudou um pouquinho, não vou dizer que mudou muito não.

Por que você acha que houve essa mudança, ainda que pequena?

Mudou a partir do momento em que ficou muito claro, principalmente para a grande imprensa que vende muito em áreas populares, Extra, O Dia, que se não colocar a versão da comunidade perde totalmente a credibilidade. Aí vai perder mercado. E existem também os jornalistas que se dedicam. Sem nenhuma ilusão sobre como a grande imprensa trabalha, mas não dá para dispensar esse tipo de pressão, de tentativa de furar esse bloqueio. Mas só a partir de mobilização, só a partir de organização e de criar ao longo do tempo os contatos certos com as pessoas boas que tem na grande imprensa. Por que os grandes jornais não conseguem canalhas para trabalhar com eles? Porque a maioria das pessoas não são canalhas, não é? Então, acabam tendo que empregar pessoas que fazem um trabalho interessante, apesar de todo o bloqueio. E os jornais de São Paulo mais ainda porque, como não têm muito vínculo de clientela com o Rio, eles têm um pouco mais de independência.

Aqui no Rio as estatísticas oficiais de mortes são comparáveis a situações de guerra…

Mais inclusive, se você pegar guerras contemporâneas você não vai ver o nível de mortes que você vê aqui no Rio. Certamente é superior ao da Palestina, por exemplo. Na época que no Iraque morria mais gente ficava mais ou menos a mesma coisa que o Rio de Janeiro. Se você vai a uma favela e escolhe aleatoriamente um morador, ele vai ter uma história de abuso para contar da sua família. E abuso grave, é difícil não ter numa família que mora na favela um caso de morte, ou morreu executado pela polícia, na guerra do tráfico, ou de alguma outra maneira. É na proporção do que existiu na Argentina, lá também em determinadas cidades é difícil encontrar uma família que não tenha um desaparecido. Isso tem gerado uma reação da sociedade, embora esteja muito longe do que é necessário para começar a mudar a situação.

Estamos num regime democrático, mas existe um arranjo que controla o poder econômico, a justiça, crime. Como é que ficam os direitos humanos no meio disso tudo, já que estamos comemorando os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Não vivemos num regime democrático, vivemos num quadro legal institucional que teoricamente garantiria os direitos e a reparação dos direitos caso eles fossem violados. Reparação no sentido de condenação do Estado se o Estado cometeu um crime e reparação no sentido de o Estado assumir que foi culpado por aquilo. Mas também não acontece, então trabalhamos não é na ilusão de que esse Estado vá funcionar, mas é pressionar ao máximo para essas coisas aparecerem e têm aparecido, isso é o que é importante. O discurso de que vivemos numa democracia está cada vez mais desacreditado e não só por desacreditar, é para demonstrar a necessidade de organização dos movimentos sociais como aconteceu na época da ditadura propriamente dita. A ditadura só cedeu porque houve protesto, gente da sociedade se organizando, indo para a rua. É a mesma coisa que está acontecendo hoje numa escala muito maior. A parcela da população que hoje sofre violação é muito maior do que naquela época, o número de vítimas é muito maior. Então, o movimento que tem que se criar é muito maior e muito mais completo, porque trabalha dentro de um quadro de democracia formal que na prática não acontece. E como ficam os direitos humanos? Eu acho que o papel dos direitos humanos é denunciar e a partir da denúncia evidenciar essa contradição e mostrar que o caminho é a mobilização da sociedade. Antigamente achavam que os direitos humanos era papel de organizações de fazer denúncias. Era tomado pelo modelo, por exemplo, da Anistia Internacional. E movimentos sociais trabalhavam em termos de interesses bem específicos. Hoje é ao contrário, porque quem tem que assumir os movimentos de direitos humanos é o movimento social. Porque o interesse básico, e a partir daí vem todos os outros, que é permanecer vivo, está em risco para grande parte da população.

Uma parcela da sociedade acha que defensor dos direitos humanos é defensor de direitos de bandido, vocês da Rede e de outros movimentos têm sofrido com esse estigma?

Claro, mas a gente fala claramente, nós defendemos os direitos humanos dos bandidos e, inclusive, dos policiais que também são os piores bandidos. Defendemos o direito desses policiais corruptos e assassinos de se defenderem num julgamento justo. Não temos muito problema com isso porque direitos humanos para nós são direitos humanos, não tem essa questão de que algumas pessoas merecem direitos e outras não merecem. Por exemplo, se a pessoa comete algum tipo de delito ela tem o direito de ser presa e ser submetida a um julgamento e se for condenada tem direito à condenação de acordo com leis que são muito boas, na teoria. Mas tem que defender, a gente fala: “defendemos direitos de bandido, claro, por que não? Bandido tem direito”.

Como você percebe o olhar da comunidade para o tráfico?

A relação da comunidade com o tráfico é uma coisa muito complicada. Mudou, de uma certa maneira piorou e de outra não. Há algum tempo atrás, a maior parte dos traficantes eram pessoas de mais idade, mais equilibradas, tinham uma relação de respeito maior com a comunidade e dificilmente andavam armadas. Isso mudou muito, o pessoal foi morrendo, a média de idade dos traficantes é cada vez menor, eles são cada vez menos experientes. Agora, por outro lado, por ser um pessoal mais novo, o pessoal da comunidade tem uma relação também, às vezes, de compreensão. Porque muitas vezes é o sobrinho, é o filho. Chamam de menino, às vezes o cara é um garoto que já cometeu umas barbaridades, mas continuam a chamá-lo de menino porque compreendem que ele foi levado para aquilo. O garoto não tem nem personalidade ainda, não dá para dizer que o cara é maldoso, não é isso. Ele foi colhido por uma situação de catástrofe social. Então, mesmo que não reflita muito, a comunidade tem muita compreensão dessa situação que a juventude vive. Mas, por outro lado é complicado, a situação se tornou muito mais violenta. Eu li recentemente um livro, desses tipo best-seller, escrito por um garoto africano que é sobrevivente numa daquelas guerras absurdas que tem lá, acho que na Libéria. Muito Longe de Casa é o nome do livro e dá para compreender muito os garotos da favela. É um cara normal, jogava futebol, de repente a guerra invadiu a realidade dele, matou os parentes todos, acabou com a aldeia e aí sobraram ele e mais alguns amigos fugindo sem saber o que fazer. Qual a solução? “Ah, temos que sobreviver”. E se juntaram a um dos exércitos dos grupos armados que tinha lá. Aí começou um processo que ele mesmo não controlava de consumir droga para poder combater. Imagina um garoto de 11 anos começar a cortar a garganta das pessoas, a decepar. Só que ele é um caso muito particular porque depois teve um programa da Unicef para retirar as crianças dessas tropas. Do nada um monte de criança foi tirado e foi levado para um centro de recuperação. Só que aí entra a questão da falta de recursos, aquilo não era uma política de longo prazo, era para ficar durante um ano com aqueles garotos com incentivos, desintoxicá-los, mas depois eles tinham que arranjar um parente para se responsabilizar por eles. A maioria não tinha mais parente, mas esse deu sorte de se arranjar com um tio distante, mas ele falava que a grande maioria não conseguiu. A única experiência que tinham era a guerra, voltaram todos para os grupos armados e na prática eles não sabiam para que estavam guerreando. A situação pela qual a grande maioria da juventude é tragada é muito parecida com isso, essa coisa de que o garoto é cruel não existe. Não teve nem tempo de desenvolver isso. E a comunidade compreende muito bem, mas é uma coisa muito complicada. A parte mais desestruturada desse sistema do crime é essa e eles vão morrendo, a maioria sabe que não são eles que ficam com o grosso do que rola do dinheiro do tráfico. Eu conheci um traficante que está até hoje preso em Bangu, ele falava: “sabe quem enriqueceu com tudo isso que eu fiz de tráfico na minha vida? Polícia e advogado, eu não tenho dinheiro nenhum, minha família também não”.

Você acha que a mídia contra-hegemônica pode potencializar a mobilização dessas comunidades pelos direitos humanos?

Pode caminhar junto, acho que não parte da mídia essa questão, tem que trabalhar de uma forma mais integrada. A gente tem uma experiência na Rede que não é muito perfeita, mas que consiste em construir um sistema de denúncias e dar a palavra às comunidades de forma muito clara. Tem gerado resultado, a própria grande imprensa, às vezes, procura a Rede porque em alguns casos ela é a única que tem a oferecer a versão da comunidade. Porque a própria grande imprensa, devido à maneira servil como se coloca nessa questão, às vezes, não consegue mais se aproximar da comunidade e com razão, a comunidade não acredita mais. A gente fala para a grande imprensa: “é isso aqui, independente de vocês divulgarem ou não a gente vai divulgar com os nossos meios”. Temos que tentar fazer isso de forma mais orgânica. Se não fica aquele relato muito padrão da grande imprensa: “Bandidos fortemente armados”, aí mostra aquele bando de armas, aí vem a polícia e não sei o quê… Não tem humanidade ali, ninguém sabe por trás o que acontece. Nesses dias teve um negócio sério que encontraram um monte de armas num CIEP [escola pública] lá no morro São João. A polícia foi lá falar com algum daqueles garotos? Tinha um monte de jovem fazendo uma atividade dentro daquele CIEP no dia da consciência negra, a polícia ou a imprensa foi procurar saber a opinião daqueles garotos? Como é que eles vivem aquela situação? Não, a imprensa mostra os policiais, as armas e a coitada da diretora tentando se explicar. Isso não é comunicação, é quebrar totalmente a realidade, não é mostrar o conjunto do problema envolvido. É muito mais interessante naquele momento juntar aquele monte de jovens e dizer: “fala agora aí, como é que você vive essa situação?” Aí ele ia começar a falar, mas a grande imprensa não tem interesse nisso porque isso vai mostrar os dramas humanos que estão envolvidos e isso leva à reflexão.

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