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2009-03-29
Source: Jornal do Brasil

Cidade, experiência traumática e saúde: o caso dos familiares de vítimas de violência

Artigo de Fábio Alves Araújo, publicado no Jornal do Brasil com o título “Rio: experiência traumática”.

A principal marca das políticas de segurança pública baseadas na repressão e numa política da morte e do extermínio, como tem sido a do governador Sérgio Cabral e do secretário Beltrame, é o medo e o trauma. O Rio de Janeiro tem convivido com essa realidade há décadas.

Em 1990, onze jovens da favela de Acari foram seqüestrados, torturados, assassinados e os corpos desaparecidos, em razão da ação de um grupo de extermínio composto por policiais. Os impactos da tragédia sobre a saúde das Mães de Acari, como ficaram conhecidas, foi enorme. Tereza teve uma gravidez psicológica. Vera desenvolveu uma diabete emocional chegando a ter um dedo amputado, dois derrames, além de perder o marido que resolveu se separar depois do acontecimento e um genro que foi assassinado. A fragilidade da saúde a levou à morte antes de encontrar os restos mortais da filha desaparecida. Marilene reclama de uma dor de cabeça que nunca cessa e vive sob medicação. Todas as mães ficaram muito abaladas ao receber uma denúncia de que os filhos teriam sido esquartejados e dados a leões.

Márcia Jacintho, mãe do jovem Hanry, assassinado pela polícia, no dia 21 de novembro de 2002, no Morro do Gambá, em Lins de Vasconcelos, conseguiu provar a inocência do filho e condenar os dois policiais responsáveis, mas foi com muita dor e várias entradas no hospital, pois tornou-se hipertensa e hoje tem problemas de coração.

Dona Izildete, moradora de Queimados, perdeu um filho, desaparecido após uma blitz policial. Após o acontecimento saiu do trabalho e passou a tomar medicamentos e seu outro filho, portador de necessidades especiais, deixou de andar, efeito do sentimento de perda do irmão. Uma coleção de casos como esses têm sido registrados e acompanhados pela Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência.

A experiência de “familiares de vítimas de violência” é o testemunho maior do choque e do trauma que passou a fazer parte da vida cotidiana dos moradores do Rio. Trata-se de um conjunto de experiências que provocam rupturas nas rotinas das pessoas, subvertendo a ordem e o andamento da vida cotidiana e que em razão de sua intensidade geram no sujeito uma incapacidade de responder, provocando transtornos diversos no seu funcionamento social. O evento traumático é reprimido ou negado, e só se registra tardiamente, depois de passado algum tempo.

Assaltos, seqüestros, tiroteios, torturas, execuções e o desaparecimento forçado de pessoas, praticados seja pela ação de forças policiais, de milícias (incluindo a participação de policiais) ou facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas, compõem o repertório de acontecimentos traumáticos que passam a fazer parte da vida de muitas pessoas. A violência que se abate sobre as “vítimas diretas” estende-se às “vítimas indiretas” e em termos médicos suas conseqüências são denominadas por transtorno de estresse pós-traumático. Esse transtorno é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento desencadeia também alterações neurofisiológicas e mentais.

A vida pessoal e social dessas pessoas é parcialmente destruída. Muitas abandonam o trabalho, e a vivência do trauma acarreta o desenvolvimento de uma série de sintomas e doenças que inclui problemas cardíacos, hipertensão, ansiedade, gravidez psicológica, uso contínuo de medicamentos, alcoolismo, diabetes, falta de concentração, insônia, fobias de todo o tipo, evitação de pessoas e lugares relacionados à tragédia. O cuidado da dor se apresenta, portanto, como um problema de saúde pública e mental.

Fábio Alves Araújo
Sociólogo, doutorando em sociologia pelo PPGSA/IFCS/UFRJ e militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência

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