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2009-01-17
Source: Jornal Surgente, do Sindipetro/RJ

Violência como política de classe

Reportagem elaborada a partir da entrevista de Maurício Campos e Márcia Jacintho à Rádio Surgente, da Web Rádio Petroleira, em 25/11/2008. O áudio da entrevista pode ser acessado aqui.

A política de violência e violação dos direitos humanos dos moradores de comunidades pobres implementada pelo Estado brasileiro não pára de gerar vítimas. No Rio de Janeiro, a verdadeira política de guerra à pobreza do governo do estado multiplica diariamente o número de vítimas fatais sob a justificativa do combate à criminalidade. Na contramão da lógica hegemônica, os movimentos sociais se organizam para denunciar as arbitrariedades cometidas pelo poder público, cobrar respostas aos crimes já cometidos e, ao mesmo tempo, impulsionar a luta pela instalação de uma nova ordem social, livre das desigualdades, da violência e da opressão.

Em entrevista ao programa Rádio Surgente, da Web Rádio Petroleira, Maurício Campos, integrante da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, falou sobre o processo de organização da resistência popular: “A Rede se desenvolveu a partir do movimento Posso me Identificar?, que surgiu do acúmulo de lutas das comunidades e, em particular, das famílias de vítimas da violência policial. O movimento se fortaleceu em 2003, e adotou o lema “posso me identificar?” porque, em abril daquele ano, aconteceu uma chacina no Borel e os rapazes que foram assassinados imploraram aos policiais que os abordaram para que pudessem se identificar. Os policiais não deixaram e executaram os rapazes. Em 2004, um ano após a chacina, fizemos uma grande manifestação que deu a partida para a formação da Rede. Identificamos que a luta ia além da lembrança do Borel, que era contra a violação de direitos que acontece sistematicamente nas comunidades pobres do Rio de Janeiro”, disse.

O recrudescimento da política repressiva do Estado, segundo Maurício, deve ser compreendido em suas relações com a implementação da política neoliberal. Na avaliação do integrante da Rede Contra a Violência, um Estado que é “mínimo” no oferecimento de direitos sociais precisa ser “máximo” na política de violência. Diante do aumento do desemprego, da desagregação social e da instabilidade das famílias, multiplicam-se as pessoas que podem ser potencialmente recrutadas pelo crime organizado, e a repressão aparece como uma tentativa de controle da ordem social. “Precisamos deixar claro que os casos de violência e violação de direitos humanos não se devem a um problema individual dos policiais que os praticam. O que determina essa situação é a formação e a orientação política que são dadas aos policiais, que parte do princípio que uma parcela da população deve ser julgada como potencialmente criminosa, perigosa, e, portanto, não detentora de direitos. É uma política de classe, contra os pobres, não é igual para toda a sociedade”, analisou Maurício.

A justificativa apresentada pelo Estado para as ações de violência, de “combate à criminalidade”, foi duramente criticada e desconstruída pelo militante. Maurício lembrou que a rede criminosa no Brasil é muito ampla e depende da participação direta e organizada de setores que estão muito longe das favelas. As armas de guerra utilizadas pelo tráfico, por exemplo, não são produzidas na América Latina e só chegam ao Brasil depois de passarem por um conjunto de instituições e supostos controles. Os componentes fundamentais da criminalidade, portanto, ficam invisíveis. “O crime verdadeiramente organizado, instalado no aparelho de Estado, nas grandes empresas, nos circuitos financeiros internacionais, não é combatido. Falar que está se fazendo combate à criminalidade fazendo operação em favela, dando tiro, entrando com caveirão, é uma mentira muito grande”, declarou Maurício, que reafirmou a construção da resistência, da mobilização e da organização como único caminho possível para a transformação da ordem social de violência e terror instalada atualmente.

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