Source: Renato Prata Biar
Tragédias tão comuns
Sempre que acontece uma tragédia como essa do garoto de três anos que foi baleado e morto pela polícia, numa perseguição a bandidos, retorna-se, como sempre, à mesma retórica de que os policiais estão mal preparados. Mentira! Não estão não! Pelo contrário, eles estão fazendo e cumprindo exatamente aquilo que eles aprenderam dentro da Academia de Polícia, nos quartéis e também nas ruas. A polícia do Rio de Janeiro, e de todo o Brasil de uma maneira geral, é treinada e orientada para executar (somente no ano de 2007 foram registrados 1260 homicídios praticados pelos policiais do RJ).
Entretanto, o problema desse tipo de preparo e orientação é que os policiais acabam pensando que podem agir da mesma forma em qualquer lugar e com qualquer pessoa. Eles não conseguem perceber que esse tipo de ação violenta e voltada para o extermínio só é permitida e tolerada nos morros, favelas e periferias e contra seus respectivos moradores que, por habitarem essas áreas, são colocados sob suspeição e criminalizados de forma imediata. Nessas localidades e contra essas pessoas eles podem atirar à vontade e ainda cantar que a sua missão “é invadir favela e deixar corpo no chão”. Prova disso é que uma criança de seis anos também foi assassinada a tiros pela polícia durante uma operação na favela do Muquiço, no dia 28 de junho, mas o fato não ganhou muito espaço na grande mídia. Porém, nesse caso, naturaliza-se o ocorrido, como se o valor da vida de uma criança, ou de qualquer outra pessoa, pudesse ser aferida pela sua condição social.
No Brasil, no período da escravidão, um escravo que matasse o seu Senhor, e motivo era o que não lhe faltava para isso, era executado; mas o Senhor que matasse um ou mais escravos pagava uma multa à justiça e era imediatamente liberado. A lógica continua a mesma. O que mudou foi o aprimoramento dos aparatos de repressão e coerção, principalmente no que se refere ao desenvolvimento da força policial. Portanto, a violência é uma política de Estado, legitimada e incentivada pelos donos do poder para garantir, principalmente, o direito à propriedade privada e ao lucro. Onde o único limite é a não-utilização e a recusa absoluta do uso dessa violência contra aqueles que estão acima das leis e das instituições que representam essas leis e as fazem valer. Mesmo porque, o tipo de crime almejado e cometido pela classe dominante ocorre em salas reservadas e com ar-condicionado, e suas armas são o papel e a caneta. Mas, podem acreditar, essas armas matam muito mais do que qualquer fuzil automático de última geração.
Portanto, a vida dessa criança de três anos que foi ceifada de maneira trágica, será apenas mais uma a fazer parte das estatísticas. Não haverá mudança na orientação e nem na preparação dos policiais porque a classe dominante brasileira não sabe e nem tem capacidade de dialogar com a massa da população, daí a necessidade de uma polícia desse tipo. O chamado “despreparo dos policiais” não passa de um eufemismo para esconder o fato de que ter uma polícia extremamente violenta, com o intuito de intimidar e, se necessário, eliminar aquele que se atrever a tentar afrontar a ordem vigente, é algo que se quis e que se programou meticulosamente. A ignorância, a intolerância e, mais ainda, o medo de perder seus privilégios e concessões são as características principais e inconfundíveis da elite política e financeira do Brasil.
Além disso, é importante lembrar que, com a globalização, a segurança pública foi propositadamente desmantelada para que empresas privadas pudessem lucrar e crescer ocupando o espaço deixado pelo antigo Estado do Bem-estar, transformando a segurança numa mercadoria como outra qualquer: quem puder pagar tem e quem não puder pagar que se vire. Basta verificar a quantidade de empresas de vigilância (o efetivo de vigilantes no Brasil, já é maior do que todo o efetivo das polícias civil e militar junto) e de outras empresas ligadas a serviços e produtos referentes à segurança patrimonial e pessoal.
Mas, observando uma declaração da Secretária de Defesa dos Estados Unidos, Condolessa Rice, quando soube da dimensão da destruição causada pelo Tsunami na Indonésia, pode-se entender bem o tipo de mundo em que estamos vivendo; disse ela: “É uma oportunidade imperdível para se realizar bons negócios.”. Talvez, aqui no Brasil, alguma empresa de blindagem de automóveis (o Brasil é um dos países que possui uma das maiores frotas de carros blindados no mundo) utilize a imagem do carro onde essa criança foi assassinada e coloque num outdoor, com uma chamada do tipo: “Para que isso não aconteça com você e sua família, adquira já sua blindagem por um preço bem menor do que você imagina.” Como escreveu K. Marx em seu livro, Contribuição à Crítica da Economia Política:
“O dinheiro não é só um objeto da paixão de enriquecer; ele é o próprio objeto. Essencialmente essa paixão é a auri sacra famis (a maldita sede do ouro). A paixão de enriquecer, ao contrário da paixão pelas riquezas naturais particulares ou pelos valores de uso tais como o vestuário, as jóias, os rebanhos, etc., só é possível a partir do momento em que a riqueza geral se individualiza numa coisa particular e pode, assim, ser retirada sob a forma de uma mercadoria isolada. O dinheiro surge, portanto, como sendo o objeto e a fonte da paixão de enriquecer. No fundo, é o valor de troca, o seu crescimento, que se torna um fim em si mesmo.”
Para concluir, podemos perceber que é através da dor e do desespero, já tão comuns às camadas mais pobres da sociedade, que as pessoas pertencentes às classes mais abastadas estão descobrindo o quanto é duro e desesperador perder filhos, parentes, amigos, etc. de uma forma tão violenta e cruel. E que a única conseqüência certa nessa guerra do olho por olho e dente por dente, é que acabaremos todos cegos e banguelas.

