Dulcinéria Pereira da Silva (10/05/63 - 18/03/07) - Exemplo de luta e vítima da violência e do descaso
Dulcinéria nasceu em 10/05/1963 e faleceu internada em um hospital público em 18/03/2007. Era mãe de cinco crianças e também de Júlio César Pereira da Silva, assassinado covardemente aos 16 anos por policiais militares em 07/01/2004, junto com outros quatro jovens, no que ficou conhecido como chacina do Caju.
Após o assassinato, juntou-se com outras mães do caso na luta por justiça, e passou a militar também na Rede contra a Violência. Prestou depoimento no documentário “Entre Muros e Favelas” e fez parte da comitiva da Rede que esteve no Fórum Social Mundial em janeiro de 2005.
Dulcinéria e outras mães com Hebe de Bonafini, das Madres de
La Plaza de Mayo (Argentina), durante o Fórum Social Mundial de 2005
Além da luta contra a violência do Estado, Dulcinéria, chamada também de Lúcia por parentes e amigos, participava ativamente das mobilizações de sua comunidade contra a pobreza e a injustiça a que os moradores de favelas estão submetidos. Participava ativamente da luta contra o fechamento do posto municipal de saúde Dr. Fernando Braga Lopes, cuja área de atendimento totalizava mais de 50 mil pessoas. Participou da manifestação do dia 29/01/2006, fechando a Rua Carlos Seidl, que foi brutalmente reprimida pela PM. O posto acabou sendo fechado, e a comunidade para ter atendimento médico tem que se deslocar para unidades distantes.
Ironicamente, foi esse descaso público com a saúde que acabou levando Dulcinéria à morte. Ela, que já vinha desanimada e deprimida há meses pelo caso da chacina de 2004 não avançar na justiça, foi internada no dia 12/03/2007 e o diagnóstico preliminar indicou meningite e tuberculose. Seu corpo frágil e doente não resistiu e ela faleceu na madrugada do dia 17 para o dia 18.
Dulcinéria, Lúcia, deixou para todos nós a imagem de uma mulher de favela sofrida e maltratada, mas também de uma lutadora, uma combatente na criação dos filhos, na denúncia a policiais assassinos e nas manifestações de rua pelos direitos de sua comunidade.
As mulheres das favelas são fábricas de resistência e dignidade
Dulcinéria foi um exemplo claro de como as mulheres moradoras de favelas são verdadeiras heroínas, enfrentando todas as dificuldades (muitas vezes até o abandono dos pais de seus filhos) para criar sua prole e lutar por seus direitos. Entretanto, essa não é a opinião de boa parte da sociedade e dos governos, que nos trata com preconceito e descaso.
Um exemplo desse preconceito é o próprio governador Sérgio Cabral, que se elegeu entre outras coisas prometendo acabar como caveirão, mas vem tratando as favelas com ainda mais violência que os governos anteriores.
No dia 22/10/2007, numa entrevista, Sérgio Cabral, defendeu a legalização do aborto, mas não defendeu como um direito para todas as mulheres, e sim como um “remédio” para as mulheres de favelas, uma forma de “conter a violência”. De acordo com suas palavras: “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”.
As palavras do governador mostram bem o seu preconceito e sua brutalidade, que se reflete nos índices crescentes de violência policial e destruição dos serviços públicos que deveriam beneficiar a população pobre das favelas. Não admitimos que ninguém, muito menos o governador, use esse tipo de linguagem que aumenta ainda mais a discriminação contra a população favelada, e leva ao sofrimento e à morte de pessoas como Dulcinéria.
Por isso, vários familiares de vítimas da violência do Estado, juntamente com a Rede contra a Violência e instituições que prestam assessoria jurídica à população pobre e aos movimentos sociais, estamos tomando as providências para processar o Estado do Rio de Janeiro, por ofensa à dignidade humana, tratamento discriminatório, crimes de racismo e contra a honra, baseados nas declarações de Cabral e de seu secretário de Segurança José Beltrame.
Sigamos o exemplo de luta de Dulcinéria
Para evitar que sejamos cada vez mais massacrados e humilhados pelos governantes e pela parte preconceituosa da sociedade, temos que contar antes de tudo com nós mesmos, com nossa união, nossa organização e nossa luta. Não esperemos que ninguém faça nada por nós, mas também não vamos nos entregar ao desespero e à solidão. O exemplo de Dulcinéria que nos motiva é o da sua luta e sua busca por justiça. Enquanto lutarmos ela continuará viva entre nós, assim como tantas e tantos outros que já se foram.

