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2007-10-28
Source: Marcia de Oliveira Silva Jacintho

Faço parte dessa sociedade, ainda que ela não me tem como tal

Hanry, natural do Rio de Janeiro. Data de nascimento, 28/09/1986. A um mês de nascido, fui morar em Minas Gerais, e lá foi a infância dele. Vinha sempre no Rio com ele, mesmo sendo bebê. Eu estava no Rio quando nasceram os primeiros dentinhos, quando deu os primeiros passos, meu bebê sempre foi muito lindo, aos 9 meses já falava mama, seu jardim de infância foi em MG, escolas etc; pois seu pai era da cidade de Minas, e eu fui um dia visitar a cidade e gostei, e um tempo depois fui morar lá, é uma cidade maravilhosa.

E ele era um menino alegre porém reservado, ou melhor dizendo tímido, mas tinha muita facilidade de fazer amigos, mas avisava que não gostava que mexessem em nada que era seu, e já desde pequeno escolhia as roupas que queria vestir, era machista porém, amável. Pois, foi criado, com muito amor, todos nós amávamos. A saudade será para sempre, eterna.

Sonhos: ser jogador de futebol, e poder ter situação boa para me tirar do morro, foram as palavras dele, quando estava fazendo o curso esportivo. Fatos marcantes: bons foram muitos, mas quero falar de um momento que foi de um grande orgulho para mim, quando ele teve seu primeiro emprego como adolescente, via nele um sorriso, como assim dizendo sou homem, ali vi que meu menino acabava de virar um homenzinho, no bom sentido.

Último dia, ele tomou banho e se preparava para sair, quando me viu me arrumando para sair. E me perguntou, mãe a onde a senhora vai? E eu lhe respondi: ora, em vez do filho dar satisfação à mãe, é a mãe que dá ao filho. E ele riu, e eu falei, vou levar sua sobrinha no médico, e ele saiu, isso era mais ou menos 10:30h da manhã, e foi a última vez que vi meu filho com vida.

Assassinado, executado; dia 21/11/2002, no Morro do Gambá, Lins e Vasconcelos, RJ. Ele foi á única pessoa nesse dia a ser executado. Porque ele vinha só, da casa de seu amigo na comunidade vizinha, essa conhecida como Boca do Mato. Pois o seu direito de ir e vir lhe fora tirado, porque? Ele era pobre, negro, morador de morro etc… não tinha esse direito. Ele vinha para casa, e que mal tinha nisso? Ele estudava à noite, e sua aula começava 18:20 com permissão de entrada até 18:45, e à hora que ouvi os tiros, mais ou menos 17:20, me preocupei com meu esposo, porque ele tinha acabado de sair de casa, para ir na casa de nosso amigo no sítio. Pois eu tinha chegado do médico com minha neta e estava muito cansada, e acabei dormindo por volta 22h, ainda pensei, o Hanry não veio,vou brigar com ele porque ele faltou aula. Ah, ele já não estava mais conosco.

Aqueles tiros, um deles tinham tirado de mim meu menino, e só fiquei sabendo o que tinha acontecido, por que ele não veio para casa, aí sim foi o desespero. Quando meu esposo ao acordar, não viu meu filho dormindo, então me disse, amor o Hanry não está em casa. Dei um pulo da cama, o coração parecia que ia sair pela boca, então esperei ficar claro, e comecei a bater de casa em casa de seus amigos, minha mãe, prima, e nada, quando eu estava no ponto das kombis, o marido dessa amiga que estava comigo disse para mim: Márcia não quero te assustar, seu cunhado veio do Salgado Filho ontem e disse que o segurança tinha comentado que chegou um baleado lá, e que estava de bermuda preta e que era daqui, como ninguém sabia de nada, ficamos na nossa. Olha, o Hanry estava de bermuda preta. Meu mundo caiu, eu que já estava chorando, fiquei louca, fui direto para o hospital, procurei, foi quando no registro da noite mostrava entrada de mortos porém em troca de tiros com a policia, eu disse não é meu filho.

Eu ligava para minha casa e nada, voltei para casa e todo mundo me perguntava e aí Márcia achou ele? Não, vou para o IML. E ao entrar em casa, um vazio, acabou, e foi quando meu marido me ligou, e aí, amor ele chegou e eu disse: vai para o IML, acho que mataram meu filho, e fui, e quando eu cheguei meu esposo já estava lá, e não demorou, confirmado, era ele que estava lá com um tiro no peito à queima roupa bem no coração. Fim de um jovem que tinha sonhos, mas porque não era bandido não tinha nada para perder, a não ser sua vida, que para esses monstros não valia nada, é assim que as coisas funcionam nos morros. Vivem quem pode pagar arrego pela sua vida. Só quero justiça,em primeiro lugar a de Deus, e também a dos homens.

E, foi assim, com muita dor, várias entradas no hospital, a pressão alta, porque hoje sou hipertensa, tenho dois problemas de coração, minha vida nunca mais será á mesma. Não tem nada que me faça entender tamanha maldade, às vezes olho em muitos jovens, e imagino como ele estaria hoje aos 21 anos, que completou no dia 28/09/2007. Chorei muito, fui no cemitério, onde estão guardados ali os ossos mortais dele, é terrível, mais é o que esses monstros fizeram comigo, com minhas filhas, minha mãe, parentes e amigos, pois ele tinha muitos. Ele era querido por todos, a escola ficou de luto, muitos revoltados.

Conhecendo como ele era criticaram muito a covardia da ação da polícia. Ainda sou dependente de medicamento, tanto para o coração como para pressão .Tento levar minha vida ou o que sobrou dela assim dizendo, e isso não é demagogia, é dor mesmo de uma mãe. Há uma voz dentro de mim que não vai calar nunca, por justiça, o tiro que deram no coração dele deram também no meu. Tenho fé em Deus que terei a resposta da justiça, pois sou cumpridora dos meus deveres, sou cidadã, e faço parte dessa sociedade, ainda que ela não me tem como tal. Pois essa mesma sociedade, nos exclui. E muitas das vezes elogiam a ação violenta. É treinada para matar, pobres, como se fosse aqui que está o mal. Meu filho, meu amor eterno.

Marcia de Oliveira Silva Jacintho

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