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2007-10-28
Source: Patrícia Silva Gomes dos Santos

Deixar de ser escória dessa sociedade

Como me senti ou como me sinto até hoje, impotente. Apenas mais uma entre tantas que perdeu o irmão de maneira vil, discriminada. Até hoje eu não consigo falar da morte do meu irmão sem que me de um nó na garganta, e as lágrimas rolem. Não tem um dia em que eu não deixo de lembrar do 21 de novembro de 2002, entre 17 e 18h , quando ouvi em pé na pia, lavando louça um barulho que ninguém me tira da cabeça que foi o tiro que tirou a vida do meu irmão, de apenas 16 anos, o qual eu vi nascer. Dei banho, mamadeira, vi nascer os primeiros dentinhos, no momento foi só um aperto no peito, no dia seguinte, a confIrmação. Ele já não estava mais entre nós. Por muito tempo eu vivi perguntando porque com meu irmão, porque Deus? Até mesmo o quê eu poderia ter feito de errado. Mas a verdade é que eu não pude fazer nada, e hoje eu sei que Deus e nem eu tivemos culpa.

Eu tinha um sonho, já que tinha perdido meu pai, o meu irmão entrasse na igreja comigo e me levaria até o altar. Mas, isso não aconteceu. Sonhei em vê-lo na faculdade, deixar de ser escória dessa sociedade, porque é assim que o governo vê, junto com essa chamada secretaria de segurança etc…

Somos tratados como um povinho que não vale para nada, mas na hora de votarmos, aí somos alguma coisa. Esse povo favelado serve, a população que não teve a chance de ter estudo, que não foi o caso do meu irmão, que aos 15 anos já estava no 1o ano do 2o grau, e aí o que valeu? Quiseram saber quem era o menino? Ou bem melhor falando, eles sabiam, que o menino não tinha nada a ver com tráfico ou coisa assim, só que no morro ninguém vale para esses bichos, monstros, porque é assim que eles são.

Mas somos um povo guerreiro, honesto,e acima de tudo temos muito amor e fé em Deus, que há de julgar todos nessa terra e com justiça divina. Como eu me sinto? Como se sentiria uma irmã que perdeu seu irmão com tiro no peito à queima roupa? Eu me pergunto, será que ele implorou para que não o matassem? Com base no laudo cadavérico ele poderia estar de joelhos. Que ser humano, se é que se pode chamar assim, pode ser tão sem coração assim? Será que eles, os PMs os assassinos, que tiraram a vida do meu irmão, têm família? Tem amor? É difícil acreditar, eu acredito na justiça de Deus e também quero muito poder acreditar na dos homem. E só o que eu espero. Passe o tempo que passar.

Se isso importar, eu tive uma última conversa com meu irmão no dia 20/11/2002, eu falei para ele que o amava. Sabem quanto isso me atormenta! A última vez que tive uma conversa com meu irmão, eu diria que foi uma despedida, porém hoje eu vejo como se Deus me deu chance para que hoje eu possa me lembrar do último dia que estive junto com ele com um lado positivo.

Ele era desde novinho alegria da casa. Ele aos 7 meses pulava no colo das pessoas, batendo palmas nos cultos que tinha na casa da minha mãe, que nos deu uma educação exemplar. E isso foi para nós três, crescemos num lar abençoado. Pensando no bem de todos nós e de ficarmos todos juntos aqui no Rio, pois estávamos morando em MG, talvez foi o único erro que minha mãe fez, se pode se falar de erro uma mãe querer seus filhos juntos e bem. Porque sei que minha mãe se arrepende amargamente de ter voltado para o Rio, mostrou para meu irmão e para nós o perigo da vida em geral, porém imaginar que viria daqueles que deveriam preservar a vida, isso nunca. E, mais, foram eles no total 11 PMs, 9 no alto do morro executando, um atirou e matou, e os outros, em acordo entre eles montaram o KIT bandido (auto de resistência). Moleza, era o plano perfeito, só que a estória mudou, tinha outros personagens nessa estória. Que viraria com toda certeza, e esses personagens são os principais, a desvendar um crime quase perfeito. Pois matar para eles, era e é tão normal, e sabem que eles são o terror da comunidade, e sempre matam bandidos e ninguém faz nada. Porque tem como bandido estar nessa vida por que, eles sabem que vão morrer a qualquer hora. E ninguém se importa e ainda batem palmas. E com meu irmão não foi assim, ele tinha nada com o tráfico, e minha mãe quando sobreviveu do choque, foi à luta para punir os assassinos do meu irmão, e continua até hoje na luta, e eu creio que eles vão pagar pelo que fez. Então nós seguiremos com a dor porque foi isso que eles deixaram para nós para o resto da vida, isso é o resumo. Guardarei em meu coração para sempre o meu querido irmão Hanry.

Patrícia Silva Gomes dos Santos, 30 anos, casada, mãe de dois filhos, irmã de Hanry, assassinado por PMs.

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